raquelkogan
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1998

 

Raquel escreve. Mas não dá para entender nada. É claro! Seus textos não devem ser lidos, e sim vistos. Uma caligrafia incompreensível,solta, voltada para todas as direções, preta, branca, cinza, positivo no negativo, negativo no positivo.
Alguma coisa a ver com Torá, livro, texto, número? My heart is an open book, diz a canção. O poeta quer dizer à amada que não tem nada para esconder. Raquel Kogan não tem nada para esconder. Diz tudo. Põe tudo no papel. Absolutamente tudo. Está tudo lá. Sua vida, seus amores, seus traumas, o holocausto. Números que já estavam escritos no seu trabalho de graduação na Faculdade de Arquitetura do Mackenzie, uma tabela de números infinita, impossível, inviável e inútil para qualquer fim prático. Está tudo escrito, exposto mas ilegível. A caligrafia de Raquel é uma pintura, na verdade. Ou um desenho, ou ainda uma gravura - a matriz de uma gravura. Uma monografia, se é possível alterar aqui o significado desta palavra. Isso porque as “monografias” de Raquel tratam de tudo, e não de um único assunto: são plurigrafias. Plurigrafias visuais que não tem apenas uma leitura, mas várias. Várias leituras que se anulam e se reduzem ao essencial: o aspecto visual, quase táctil, do texto escrito. A sua presença, apenas. A presença do texto escrito como garantia da sobrevivência da cultura de um povo. Não mais o contéudo, mas a forma. A possibilidade de escrever, antes mesmo de se saber o que escrever. O momento anterior ao Gênesis. Anterior à criação. A possibilidade de se contar uma história que ainda não aconteceu. A sua antevisão. Ou um passado pesado demais, insustentável na sua realidade crua: é preciso transcendê-lo, mas nunca esquecê-lo, porque isso seria fazer um acordo com a morte. Arte é vida.

Antonio Malta Campos
arquiteto, artista plástico
São Paulo, 18/9/98
Raquel writes. but one cannot understand anything. Of course! Her texts are not supposed to be read, but seen. It is an incomprehensible handwriting, loose, towards many directions, black, white, gray, positive on the negative, negative on the positive.
Something to do with the Torah, a book, a text, a number? My heart is an open book, says the song. The poet wants to say to his lover that he has nothing to hide. Raquel Kogan doesn’t have anything to hide. She says everything. She putseverything on paper. Absolutely everything.
Everything is there. Her life, her loved ones, her traumas, the holocaust. Numbers that where already written on her graduating paper at her Architecture University- Mackenzie- an endless, impossible number chart, worthless for any practicable use. Eveything is written, exposed but illegible. In reality Raquel’s handwriting is a painting. A sketch or even an engraving- the plate for an engraving. A monografy, if is possible to change here the meaning of this word. Because the “monografies” of Raquel deal with everything and not only one matter: they actually are plurigrafies. Visual plurigrafies that don’t have only one reading, but several ones. Several readings that nullify one another and are reduced to the essential: the visual aspect, almost touchable of the written text. Only its presence. The presence of the written text as a warranty of the survival of a culture. No more the content but the form. The possibility of writing even before knowing what to write about. The moment before Genesis. Before the creation. The possibility of telling a history that didn’t happen yet. The forseen by her. Or a past that is too heavy, unbearable in its naked reality: it is necessary to trancend it, but never forget it, because to do it would be like making an agreement with death. And art is life.

Antonio Malta Campos
architect, artist
São Paulo, 9/18/98