raquelkogan
reflexão#2


2005

 

INTERCONNECT@ BETWEEN ATTENTION AND IMMERSION ZKM
cinético digital


Em Reflexão#2 o reflexo ocorre nas paredes espelhadas, a projeção no chão. Em uma sala escura dois espelhos são colocados frente a frente, com uma distancia de 6 m um do outro. No chão entre eles acontece duas projeções gerenciadas por um computador. Ao acessar a sala o interator intercepta um sensor de presença que aciona um bip, avisando que seu corpo ativou a interação. Interação esta totalmente dependente desse corpo, sem ele a obra não existe. É a convergência entre corpo, percepção sensorial e espaço. Você tem de estar com o corpo ativado, para se ver, ver os outros, infinitamente no jogo de espelhos.


tatuagem escrita com luz.

Refletir é dobrar, em dois sentidos: imagem que, dispersa em superfície especular, fica duas vezes maior do que era; pensamento que, concentrado nas curvas da memória, expande. Em Reflexão #2, ambos os sentidos de “refletir” são importantes. Os números que compõem o ambiente criado por Raquel Kogan projetam-se em direções opostas; e constroem um espaço contemplativo. (Em que o sentido de “reflexão” como “reparo” não pode ser desprezado; o ambiente estimula o trabalho da memória, ao se oferecer como lugar de contemplação e trânsito).
Impossível visitar Reflexão #2: a sala escura, incompleta, é um espaço a ser compartilhado e povoado, já que a ação do corpo sobre o espaço é imprescindível para seu desenrolar e quanto mais corpos mais intenso o resultado. O ambiente se preenche a cada passo, a cada trajetória traçada em seu interior. O espaço oscila conforme o jogo de luz e sombra fica mais complexo. Ele reflete a trama de corpos (e números) que ali se movimentam. O procedimento estabelece uma dinâmica em que alguém ocupa o lugar de outro, sem que essas figuras ganhem um contorno reconhecível. Cada corpo presente no ambiente construído por Kogan manifesta (indiretamente) uma ausência. E, como não há elementos figurativos, essa ausência torna-se uma espécie de vazio a ser preenchido. Como? Não cabe aqui propor uma fórmula, mas lembrar que as seqüências de números podem assumir os significados mais diversos, às vezes prosaicos e outras terríveis.
O movimento de deslocamento e transferência para um espaço diferente — espaço que, ao mesmo tempo, desloca e transfere (modificada) sua sombra ao ambiente — é um tipo de acontecimento comum na obra de Raquel Kogan. Mas, em Reflexão #2, ele surge modificado, transformado em tatuagem de luz sobre a pele, e não apenas em duplo do corpo. Esse bordado paciente fende a retidão de um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove... onde se supunha o anônimo, surge a miríade de indivíduos transformados em espelhos. Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove reflexos. Nesse sentido, o espaço criado por Kogan tece um jogo complexo, em que o espaço vazio precisa ser preenchido o tempo todo. Esse processo pode ser entendido como estímulo a manifestar lembranças até então reprimidas, como forma de preencher os vazios abundantes que cercam o transeunte. É o movimento de quem entra na sala que inscreve corpos nos números ali presentes, e não o contrário. Humanizam-se os números. Nesse momento, fica claro que, em Reflexão #2, ausência e presença, anônimo e singular, orgânico e sintético, todos se embaralham. Por meio deste embaralhamento, o investimento nas alteridades multiplicadas — constante nos trabalhos de Kogan, não custa repetir — torna-se mais sutil. Reflexão #2 é inscrição em ato. Andar por seus espaços, preencher os seus vazios, emprestar corpo aos números antes ocos, modificar a trajetória da luz (e dos espaços negros entre elas), preencher de sons seu silêncio eloqüente.
Entender o trabalho de Kogan apenas como convite ao mergulho num mundo de luzes e sombras, ou só pelo semblante inequívoco em que se transformou hoje em dia a imagem da cachoeira de números — forma de representar o mundo digital célebre em toda ficção científica posterior a William Gibson — é um engano. Não que esses elementos estejam ausentes em Reflexão #2. Mas eles não são os únicos e, talvez, sequer os mais importantes. O silêncio e a ausência de elementos figurativos inscreve o trabalho no espaço negativo da gesamtkunstwerk. Por isso, o ambiente pode ser entendido como um lugar de tensão entre o imersivo e o emergente. Ele estimula que fragmentos de memória aflorem em meio a seus vazios, ao invés de preencher todos os sentidos por meio de “efeitos de realismo polisensorial”.

Marcus Bastos
janeiro 2006

In Reflection#2 this reflection occurs on the mirror-covered walls, and the projection is on the floor. In a dark room, two mirrors are placed one in front of another with a distance of about 6m between them. On the floor space between them there are two projections managed by a computer. Upon accessing the room, the interactor intercepts a presence sensor which activates a beep, advising that his body activated the interaction. An interaction which is entirely dependent upon this body, without this the project does not exist. It is the convergence of body, spatial and sensorial perception. One must have his body activated in order to see himself, to see others, infinitely, in this set of mirrors.


tattoo written with light

To reflect is to double in two senses: an image which, disperses on a specular surface, becomes double its size; a thought which, concentrated in the curves of memory, expands. In Reflection #2, both senses of “reflect” are important. The numbers which compose the ambient created by Raquel Kogan are projected in opposing directions; and construct a contemplative space. (In order that the sense of “reflection” as “attention” not be disregarded; the environment stimulates the work of memory, as it is offered as a place of contemplation and passage).
Impossible to visit Reflection #2: the dark incomplete room is an area to be shared and peopled, being that the action of the body in the space is indispensable to its unfolding and the more bodies, the more intense is the result.. The surrounding is filled with each step, each passage delineated in its interior. The area oscillates as the interplay of light and shadow becomes more complex. It reflects the collusion of bodies (and numbers) that move around therein. The process establishes the dynamic where someone occupies the space of another with neither having a recognizable contour. Each body present in this ambient constructed by Kogan manifests (indirectly) an absence. And, as there are no figurative elements, this absence becomes a type of emptiness to be filled. How? It is not fitting to propose a formula here but, rather, to remember that the sequences of numbers can assume many diverse meanings, at times prosaic and at others, terrible.
The movement of displacement and transference to a different space – a space which, simultaneously, displaces and transfers (modified) its shadow in this ambient – is a kind of commonplace event in Raquel Kogan’s work. However, in Reflection #2, it is modified, transformed into a tattoo of light on the skin, and not only in a body double. This patient appliqué splits the rectitude of one, two, three, four, five, six, seven, eight, nine...and there appears a myriad of individuals transformed into mirrors, where anonymity was presumed. One, two, three, four, five, six, seven, eight, nine new reflections.
In this sense, the space created by Kogan weaves a complex interplay, in which the empty space must constantly be filled. This process can be understood as a stimulus to manifest memories until then repressed, as a way of filling the abundant emptiness that encircles the passer-by. It is the movement of the one entering the room that inscribes bodies on the numbers present therein, and not the contrary. The numbers become humanized. At this moment, it becomes clear that, in Reflection #2, absence and presence, anonymity and singular, organic and synthetic, all become tangled. Through this entanglement, the investment in multiplied otherness – a constant in Kogan’s work, which is worth repeating – becomes more subtle. Reflection #2, is inscription in action. Walking through it, filling its empty spaces, lending body to numbers previously hollow, modifies the path of light (and the black spaces between them) filling its eloquent silence with sound.
Understanding Kogan’s work merely as an invitation to dive into a world of light and shadow, or only by the unmistakable aspect that nowadays images are transformed into waterfalls of numbers – a way of representing the celebrated digital world of all science fiction after William Gibson – is a mistake. Not that these elements are absent from Reflection #2. But they are not the only ones and, maybe, not even the most important. Silence and the absence of figurative elements inscribe the work in the negative space of gesamtkuntswerk. For this reason, the ambient can be understood as a space of tension between the immersive and the emergent. It stimulates that fragments of memory flourish in the midst of emptiness, instead of filling all the senses through the “effects of polysensorial realism”.

Marcus Bastos
January 2006